sexta-feira, 13 de maio de 2011

JORNADA PARA OS ANCESTRAIS


As mitologias nos chegam através de suas matrizes mais famosas, os deuses gregos e romanos, as divindades egípcias e tantas outras que foram popularizadas pela mídia. Todas elas comungam do fato de que seus deuses estão distantes das criaturas comuns. Estão acima das capacidades humanas.  Tais mitologias têm servido de guia para o reino interior  de cada pessoa conforme os mais variados sistemas religiosos e também das práticas divinatórias, como a astrologia e o tarô.
Existem caminhos para o reino interior que são construídos por cada pessoa e por cada grupo social. Estes caminhos constituem-se na mitologia particular de cada um. Uma nação, por exemplo, conta a si mesma estórias que lhe reforçam a identidade; A mesma coisa um estado, uma cidade e um time de futebol ou grupo de amigos.
No prefácio do livro Mitologia Pessoal de David Feinstein e Stanley Krippner, a doutora June Singer diz que os mitos pessoais são geralmente confundidos com crenças errôneas, que não são simples estórias que você conta para si mesmo, mas sim "uma vibrante infra-estrutura que fornece informações sobre a sua vida, tenha você consciência dela ou não”.
Roland Barthes em seu livro Mitologias já tinha ampliado este conceito de mitologia a outras práticas que não somente aquelas que tinham algum paralelo com as culturas antigas. Do ponto de vista desta estória pessoal estruturante, temos a fábula de Paulo Coelho em seu livro "O Alquimista" relatando sobre a existência de uma lenda pessoal.
É uma grande aventura procurar investigar a própria mitologia pessoal e expandir a sua consciência  para além das limitações da compreensão  cotidiana. O livro Mitologia Pessoal, citado acima, propõe um modo de descobrir o sua história interior através de rituais, dos sonhos e da imaginação.
Os rituais propostos são de natureza simbólica e devem ser conduzidos como um jogo criativo. O primeiro ritual é a jornada de volta aos seus ancestrais. É um ritual de apresentação da mitologia pessoal e pede ao participante que imagine uma ida ao ponto de origem de sua mitologia. É uma viagem extremamente simples que consiste em imaginar de onde vem todas as coisas que hoje se encontram em você.
O ritual pode ser feito assim: Vá para uma sala ampla que lhe permita dar alguns passos para trás. Coloque-se na posição atual e verifique qual é o seu mundo agora, quais as suas maiores preocupações, quais as suas principais fontes de satisfação, como compreende a sua posição na sociedade, suas limitações, privilégios e responsabilidades; se também acredita ou percebe que alguma força superior preside os destinos humanos. Depois de fazer este inventário  a partir de você mesmo no agora, vá à segunda etapa.
Dê um passo para trás e imagine-se entrando no corpo de seu pai (ou de figura masculina equivalente) se for homem, ou de sua mãe (ou de figura feminina equivalente)  se for mulher, faça isso como se vestisse a pele deles como naquele filme " Quero ser John Malkovich”( Being John Malkovich), do mesmo modo que fazem os atores com as suas personagens, coloque-se no lugar dele sabendo que não é ele. Então desta posição usando a imaginação verifique qual é o mundo de seu pai (ou mãe), o que ele via, ouvia e sentia, quais eram as suas maiores preocupações, quais as fontes de prazer, como compreendia a sua posição na sociedade, suas limitações, privilégios e responsabilidades e se acreditava em alguma força superior acima da criatura humana. Faça este  inventário e dramatize o que sabe da vida desta pessoa. Feito isso vamos para a terceira etapa.
Dê outro passo para trás e imagine-se entrando no corpo de seu avô e cumprindo os mesmos passos da etapa anterior. Lembre-se de tomar consciência das posições inicial, que era você mesmo, a segunda posição que era o seu pai ou sua mãe, conforme o caso. Terminada esta fase vamos para quarta etapa.
Dê um outro passo para trás e imagine-se entrando no corpo de seu tataravô ou tataravó, conforme seja o seu caso. Repita todos os passos anteriores. Agora tome consciência das posições anteriores e da sua posição atual. Lembre-se que é um jogo criativo de viagem no tempo. Desta última posição, faça o caminho de volta indo para a terceira, a segunda e a primeira posição, mas a cada etapa vá construindo um poema épico sobre si mesmo, contando de onde você vem. Ao retomar a primeira posição refaça as suas questões sobre a vida e o mundo e volte-se para as outras posições recordando aspectos fundamentais de cada uma para você atualmente.
Este é um primeiro exercício, que traz consigo os rituais seguintes que ensinam que os mitos pessoais podem ser reconstruídos, resignificados e transformados em outras coisas. Através da imaginação é possível curar o passado e apontar para a construção de um futuro feliz.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O MEDO DA ESTÉTICA OFICIAL



O medo de dizer a a própria opinião é algo que se instaurou em alguns colegas artistas da Paraíba. Não que esteja havendo uma censura estatal patrocinada por poderosos aparelhos repressivos oficiais. Ao contrário o atual governo estadual em seus poucos mais de cem dias de existência tem anunciado que não está controlando e nem pretenderá no futuro cercear a liberdade de expressão de ninguém. Mas o que temem os artistas não é a mordaça física e sim a mordaça econômica num Estado ainda tão pobre como o nosso onde qualquer migalha para a atividade cultural é um tesouro inestimável.

O governo estadual atual vem de uma bem sucedida política cultural de controle estético a nível municipal experimentada na capital João Pessoa. Os artistas e intelectuais não alinhados com a estética oficial escaldados como gatos com medo de água fervente veem diante de si uma trajetória de longos quatro anos podendo se tornarem longuíssimos 8 anos de restrições econômicas aos projetos culturais fora das vontades estéticas dos atuais ocupantes do poder. Assim é compreensível o temor.

Já dizia Brecht em um de seus textos que as pessoas primeiro satisfazem a barriga e depois a moral, significando que o instinto de sobrevivência vem em primeiro lugar. Juntando a isso o exemplo de que vale tudo para se alcançar o poder, o que de fato é verdade, pois poder político algum se alcança de maneira pacífica e ética. Todos sabem que nos bastidores desta luta vale qualquer arma, pois o errado é perder. Todos criticam a “Lei do Gérson”. Pobre do Gérson que somente fez uma propaganda de cigarros. A hipocrisia geral condenou a tal lei de que se deve levar vantagem em tudo, mas esta é a lei vigente nos subterrâneos do poder. Por trás de opções de estado estão comprometimentos pessoais dos gestores com setores maiores da economia. Nenhuma ação existe solta como ato individual e autônomo; um administrador público que agir sozinho, estará fora do jogo rapidamente.

Então devemos procurar entender o que está por trás das ações do estado tentando enxergar além da superfície e numa projeção temporal longa. Onde estes atos de agora nos levarão, quais sãos os setores da indústria cultural que será favorecida, quais os cenários possíveis enquanto durar a passagem deste coletivo político pelo poder? Estas questões nos ajudarão a compreender melhor os nossos governantes e suas opções de interferência estética. Primeiramente, é preciso aceitar que o grupo governante possui um mandato eletivo para executar a sua política. As pessoas tem o direito de discordarem e vão ter que dispor de coragem para dizê-lo publicamente. O governo dará ouvido se quiser. No momento atual, o nosso governo ainda está na fase de adaptação e autoafirmação; eles são governo, mas ainda se sentem sindicalistas numa trincheira trabalhista.

Os artistas devem falar o que pensam verdadeiramente, sem adaptações, pois os governos passam e os criadores continuam com a sua obra. É muito estranho escutar as opiniões de algumas pessoas que mudaram da água para o vinho o seu discurso em busca de participarem da distribuição de recursos entre os alinhados com a estética estatal. Dizem-me que são os novos tempos, a nova Paraíba, e que a vida é curta e cada qual deve ir fazendo o seu pé de meia para uma aposentadoria tranquila; uma nova versão da lei do Gérson, esta poderia ser rebatizada como a Lei do Girassol oportunista.

Não há regras para se enfrentar uma situação como essa pela qual passam os artistas e intelectuais paraibanos. Há um grande grupo de ambos os lados. Creio que devemos ter paciência. Um dia, o vento levará tudo isto e ao olharmos para trás veremos somente as cinzas das vaidades dos governantes que achavam que podiam tudo, que eram senhores de tudo e que podiam impor as suas vontades pois acreditavam que “governar era somente contrariar interesses”. Numa democracia é preciso encontrar pontos de equilíbrio entre os vários interesses conflitantes.
Viver com medo produz reações inesperadas. Não está longe o momento em que a arte, principalmente a comédia irá equacionar este cenário, seus personagens, de rei, rainha, nobres, cortesões e servos. Há de surgir um Mateus, ou um Benedito, ou um Pedro Malazarte que irá colocar em xeque esta situação. Apenas torço para que esta personagem não se materialize em mais um político e desvirtue a função sagrada da arte. De políticos artistas basta-nos o pastelão atual de nossas representações parlamentares com honrosas exceções.

Mas se o medo doer na alma espere mais cem dias de governo. Se não melhorar o pavor, espere mais cem. De cem em cem se chegará longe, muito além do que podem andar o atual grupo político no poder e então você estará livre para falar com liberdade. Mas não se esqueça que o tempo é agora, sempre agora, seja que governo for. Portanto, diga agora o que sente no coração.


terça-feira, 19 de abril de 2011

A CHUVA BENTA

No último Domingo de Ramos, festa importante do catolicismo, estava na missa solene das cinco horas da tarde quando a chuva que assola a cidade de João Pessoa tornou-se intensa. A igreja de Santa Júlia foi concebida num estilo arquitetônico coerente com as lutas ambientais de economia de energia. Assim a ventilação do templo é feita através de aberturas que conduzem as correntes de ar para o interior da edificação. Mas quando é inverno, às vezes, a chuva entra na nave principal em forma de uma nuvem finíssima como uma benção especial sempre lembrada pelo pároco Monsenhor Virgílio.


Neste último domingo este evento que já adquiriu ares de tradição religiosa repetiu-se com grande beleza. A força do evento criou uma nuvem que fazia movimentos espiralados cobrindo a todos com este manto de bênçãos. No início da celebração, o padre havia feito a benção dos ramos que servem à exaltação da entrada de Jesus em Jerusalém. Quando a chuva trouxe a sua presença alguns fiéis desconhecedores desta tradição da Igreja de Santa Júlia chegaram a abrir guarda-chuvas no interior da igreja.

O presidente da celebração, no entanto, bendisse a Deus pela oportunidade daquela névoa lembrando que o nosso templo nos dava a convivência com os fatos naturais e que durante o verão éramos agraciados com a ventilação intensa e saudável. Os guarda-chuvas fecharam-se diante do milagre de uma chuva benta que caia sobre a cabeça de todos e nesta fé acredito que muitos incômodos do corpo e do espírito foram curados.

Neste ano quando a campanha da Fraternidade chamou a atenção para o descaso das pessoas para com a natureza tivemos a coincidência deste evento natural. A atitude do pároco serviu para alertar as pessoas de que a natureza não é para ser temida nem destruída, mas que ela é verdadeiramente o lugar que nos foi dado para ser guardada. São Francisco de Assis bendizia a irmã chuva. E agora ela estava sobre nós. Materializando outro tipo de relação com a natureza, não mais o medo e sim um carinho com a criação divina. Claro que o excesso de águas sobre a nossa cidade tem merecido cuidados das autoridades que inclusive já decretaram estado de emergência. E não se trata de se expor às águas frias sem proteção, pois se constitui neste caso uma atitude de imprudência.

A chuva benta vem se repetindo a cada ano e noto que as pessoas não mais se assustam com isto, mas já incorporam à sua vivência religiosa. A convivência com os elementos naturais é uma característica do catolicismo que vê na natureza a obra visível de Deus, como lembra a catequese do texto da CNBB, Sou Católico, vivo a minha fé, citando o Salmo 8, "Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso teu nome em toda a terra! Sobre os céus se eleva a tua majestade!”.

Monsenhor Virgilio tem enfatizado em suas homilias esta relação dos cristãos com os fenômenos naturais lembrando que a harmonia se produz pela convivência saudável. Creio que ninguém tenha adoecido de qualquer coisa causada pela névoa que penetrou o templo. Antes vejo que todos já tomam este fato como algo miraculoso que abençoa a todos. A chuva deixou de ser algo incômodo para se incorporar às relações dos fiéis com a igreja.

A grande lição para os mais jovens é que a tarefa de amar a natureza envolve coexistir com os seus fenômenos. É necessário trabalhar pela preservação dos ritmos originais que evitam as catástrofes. O bem estar é uma tarefa coletiva. O futuro depende do respeito à vida em todas as suas manifestações. A Igreja Católica tem propugnado por bandeiras que são rechaçadas pela mídia contemporânea como coisas atrasadas e de mentalidade retrógrada. No entanto, vemos que estas lutas empreendidas pela Igreja apontam para a construção de um equilíbrio planetário.

A água que vem sobre a assembléia durante as chuvas do inverno em forma de suave névoa ajudam a compreender a necessidade de não partir para as soluções fáceis, tais como transformar o templo numa caixa climatizada. Certos confortos deseducam as pessoas. Hoje, mais do que antes, é necessário aprender a dialogar com as forças da natureza. Acabou-se o tempo em que valia a máxima de que a natureza deveria ser dominada e colocada a serviço da humanidade. Está ficando cada vez mais claro que este tipo de pensamento está ultrapassado. A terra é um organismo vivo e como tal responde a todas as agressões à sua integridade.

O planeta Terra é para ser cuidado, acarinhado como alguém de nosso coração. Em termos mais gerais nós não apenas moramos sobre a sua superfície, mas também somos partes dela.

É preciso que saibamos agradecer a chuva benta da Igreja de Santa Júlia.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O DERRADEIRO INSTANTE

Vamos pensar sobre a última hora, sobre aquelas coisas que deixamos para o último minuto.

Fico pensando qual será a motivação profunda deste comportamento, de onde vem esta coisa que faz com que deixemos uma tarefa para o último instante. Talvez seja o prazer de andar pela beira do precipício, pois é claro que as coisas que devem ser realizadas em cima do prazo assemelham-se aos perigos dos lugares difíceis e que podem nos custar a vida e a realização de nossos sonhos.

É como uma necessidade de esperar pelo instante da verdade onde seremos capazes de descortinar o verdadeiro sentido das coisas. Acho que deve ser uma necessidade premente de tentar permanecer no útero por mais alguns dias;  ver que esta espera ainda assim terá que acabar e nós teremos que descer para a realidade do mundo. Mas venhamos e convenhamos  que este último minuto, é como o último trem, aquele sem o qual não poderemos retornar, é a certeza de que este último trem nos levará para o nosso destino. Um medo de que as primeiras locomotivas poderiam nos desviar.

Assim este desassossego de enfrentar cotidianamente as tarefas que se escoram nas sombras dos ponteiros dos relógios,  esta urgência em se esconder do “agora”  é uma característica de nossa civilização tecnológica. Tudo se tornou tão fácil e previsível que é possível ganhar minutos, mas tem coisas que não podem ter o mesmo tratamento, como se tudo pudesse ser resolvido chamando um taxi que nos levasse de pronto para um lugar no qual  tudo estaria em ordem. 

Burlamos o tempo para tomar mais um cafezinho, mas tem coisas que nem a máquina de teletransporte temporal poderá nos fazer ganhar porque dependem de maturação, de plantio, de cuidados e do tempo certo para a colheita.  Esta é outra imagem que se levada pelo lado errado, pode fazer com que sejamos como aquele agricultor que do alpendre de sua casa joga as sementes em direção ao campo e vai para a rede dormir,  acreditando que as sementes farão sozinhas todo o trabalho, inclusive o de colherem-se  a si próprias  e irem depois para a panela  cozinharem-se  para que o referido homem apenas levante-se e a refeição esteja à mesa. O  cumulo do comodismo!

 Somos de uma civilização que cultua  o minuto derradeiro. Imaginem que também do ponto de vista global estamos fazendo a mesma coisa com a questão ambiental, de um modo geral, estamos coletivamente acreditando que mais tarde quando as coisas ficarem mais complicadas a ciência descobrirá uma pílula efervescente instantânea que recomporá a camada de ozônio.  E assim vamos todos neste brinquedo perigoso com o tempo, sentindo um frio na espinha com estas coisas, quando vemos acidentes naturais como este que vitimou o Japão. Alguns argumentam que aquilo já ocorre naquela região há milhões de anos, mas também não custa perceber que estes fenômenos estão cada vez mais freqüentes.

Há os mais medrosos que já vêem o fim do mundo na profecia Maia;  tem até manual de sobrevivência para 2012.  O mais preocupante é que se de fato o calendário Maia estiver correto, as pessoas somente procurarão abrigo um minuto antes de a onda gigante avançar para o continente tragando tudo.  Conheço algumas pessoas que estão se preparando para irem para o planalto central para escaparem da profecia Maia. 

A síndrome do último minuto é como uma paixão pelo desafio às profecias, inclusive aquelas que profetizamos para nós mesmos: quais devem ser as nossas tarefas e em que prazo queremos que elas ocorram. Fazemos  de tudo para fugir  da possibilidade de  não ter que esperar o último instante. Como dizia um amigo, “este último minuto é o mais encantador, pois  justifica as coisas que não puderam ser feitas”. Isto talvez sirva de explicação para  esta síndrome,  a idéia de que se não podemos ser perfeitos, então vamos justificar as nossas imperfeições na pressa do derradeiro instante.

Na compreensão de nossos limites e imperfeições está a cura deste vício de procrastinação. Devemos acreditar que podemos  fazer o que tem que ser feito sem a pressão de deve ser perfeito.  A perfeição estará em executar a tarefa ali no momento preciso sem se ater ao drama do que vão dizer;  o nosso principal espectador somos nós mesmos.

Os hedonistas irão dizer que vale mais a pena esperar e que este é  um papo furado que funciona para os obcecados. Esta é a opinião de muitos.

Seria preferível olharmos para os nossos minutos de vida com mais clemência. Somos, vez ou outra,  vitimas destas paralisias dos ponteiros da alma.

sexta-feira, 11 de março de 2011

AS MUSAS DE HOJE


“Preciso de uma musa que me conte estórias, que me faça adormecer com os seus sonhos”.

Tal foi a notícia que se podia ler numa parede de um dos corredores da universidade.

Tudo bem se fosse apenas umas das intervenções urbanas, destes muitos grafites que se espalham pelas paredes e murais. Este pedido no entanto estava colocado num cantinho quase imperceptível.  Eu sei que há muitas musas, quase infinitas criaturas neste imenso universo de tantos mundos paralelos, mas aqui entre nós, neste recanto sublime, faltam seres desta natureza. Aquele pequeno recado apontava para este problema tão cruel.

Um grande amigo poeta dizia-me que estava vivendo a insegurança de ter que ver secar a sua última inspiração de inanição em um copo de uísque por falta  de uma musa. Estava chamando o espírito alcoólico daquela bebida de “Odete” em homenagem à marca Old Eight daquela aguardente de  cereais com malte.

Outra amiga contista disse-me que são poucas as razões para as musas permanecerem em nosso mundo, que não é mais um lugar para estas coisas platônicas. Segundo ela deve-se  criar com “a merda cotidiana” fazendo  o jornalismo da realidade assumindo que a velocidade da informação torna obsoleta qualquer obra tão logo é publicada.

Citei acima dois casos extremos. Claro que as musas clássicas, que presidiam as artes liberais, estavam com dificuldades para conviverem com este nossa humanidade atual. As antigas musas eram filhas de Zeus com a deusa da memória Mnemósine. Eram elas: Políminia, Calíope, Clio, Érato, Euterpe, Melpômene, Terpíscore, Tália e Urânia.

Polímnia, era a musa dos hinos, da poesia sagrada, da geometria, da agricultura e da meditação. Tinha um ar pensativo. Uma moça muito calma e sem qualquer vaidade. Num relance da visão sobre os campos se podia vê-la com ramos de videira e instrumentos agrícolas, ou recostada em algum lugar com o olhar absorto no horizonte. Numa época de canções degeneradas, como constatou a corajosamente a jornalista Rachel Sherazade da TV Tambaú , esta musa mudou-se de planeta.

Calíope, era a filha mais velha e tinha os atributos que esta posição lhe conferia sendo considerada a rainha entre as irmãs. Ela presidia a poesia épica sendo a responsável direta pela escrita da Odisséia e da Ilíada. Dizem as más línguas da critica literária que Homero sequer existiu, que foi somente um dentre tantos outros que foram usados pela musa para compor estes poemas que fixaram a alma grega em um pergaminho. Ela é sempre vista com livros. Na universidade, às vezes temos a impressão de ver esta musa entre as estudantes sentadas na Praça da Alegria do Centro de Ciências Humanas Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba.

Clio, era a musa da história e da criatividade e a fiadora das relações políticas entre as nações. Suspeita-se que tinha o espírito fogoso do pai e que teve um caso com o historiador Heródoto que apaixonado nomeou o primeiro capítulo de sua obra, A História, com o nome dela. Esta é uma fofoca mitológica, sem qualquer fundamento, até mesmo porque  Heródoto colocou nos outros capítulos os nomes de suas irmãs. Para despistar, talvez.

Érato, ela  era a musa da poesia erótica, que nada tem a haver com o significado atual da palavra “erótico”. Foi grande amiga de Safo, poetisa que viveu na cidade de Mitilene, capital da ilha grega de Lésbos. Elas eram tão próximas que Safo chegou a ser considerada como a décima musa, pois eram vistas juntas constantemente. Esta musa, como disse um amigo filósofo de botequim, “pegou o beco prá casa da amante no mar Egeu”.

Euterpe, era a musa da música e da poesia lírica. Foi a inventora do Aulos, que é uma espécie de flauta. Ela estava sempre presente como aquela que proporciona prazer aos que a invocam. Lembrando também que no nosso mundo a palavra “prazer” virou somente o cultivo do descontrole dos sentidos. Esta magnífica criatura olímpica é uma das grandes  abandonadas, ela poderia ser hoje a musa das maiores abandonadas.

Melpômene, era a musa da poesia dramática, notadamente a tragédia.  Ela sumiu, como diz um humorista amigo, desde que o pessoal das televisões locais tentaram contratá-la para apresentar um programa de churrascaria policial nos horários das refeições.

Terpíscore, era a musa fagueira e saltitante que presidia a dança. É uma das poucas que ainda visita a terrinha. Tem sido vista em Campina Grande e em algumas casas de João Pessoa.

Tália, era a musa da comédia. Aqui na Paraíba fez amizade com a Companhia Paraibana de Comédia. Dizem que se hospeda na casa de Biuzinha. De todas as musas é a única que não se importa com as mudanças de hábitos da humanidade. Ela reina sobre estas contradições contemporâneas  e pode ser considerada como a ponta do fio de Ariádne para a luz no fim do túnel.

Urânia, era a musa da astronomia. Dizem que atualmente fica sentada em cima da lua olhando para as aventuras extra-terrestres da humanidade.

O fato é que estas nove musas pertenciam a outro tempo. Hoje  há uma sensação de orfandade criativa. Perderam-se  as intimidades com aquelas mulheres divinais. Hoje elas respondem através das técnicas de criatividade. Tomaram outros nomes e na maioria das vezes são apenas receitas de uso das energias criativas sem uma personalidade.

Encontrei  um livro que fala sobre as musas nestes tempos confusos escrito por Jill Badonski: As nove musas dos tempos modernos( e seu guardião). Ela lista a existência de nove tipos e um guardião. Partindo da constatação de que estes tempos são difíceis para a conexão com as musas, assume  no entanto que será possível reencontrar o mistério se estivermos dispostos a deixar que a beleza nos encontre.

No entanto precisamos de algo que proteja este mistério, que o guarde das emoções superficiais e das maneiras egoístas da maioria das candidatas ao posto. Por isso, o livro ensina que as musas destes novos tempos têm um guardião,  que defende as verdadeiras musas e o seu poeta dos intrusos. O nome deste guardião segundo o livro é Arnold, um nome de fantasia inspirado no ator Arnold Schwarzenegger. Dizem que as musas gostam muito do estilo do Arnold e isto serviria de contrapeso para os artistas magrinhos e sem atrativos. As musas têm uma forte queda por caírem na folia e não gostam mais tanto daquele clima diáfano de criação artística sem um calor mais concreto de músculos e prazer. Nos tempos que oram passam as musas saíram do mundo das idéias para a existência entre as criaturas humanas e tal qual elas.

As nove musas modernas  são:  Aha-frodite; Albert; Bea Maluquinha; Canção; Extrovertida; Audácia; Sossegada; Sombra e Marge. Vou lhes narrar brevemente a minha experiência quase alucinógena com cada uma delas.

Aha-frodite significa uma idéia e paixão pela criatividade. Deve ser invocada para despertar  o impulso criativo, contemplar a magia da atenção e captar e a saborear a inspiração. Esta é a descrição que encontramos no livro. Eu aproveitei um momento em que estava sozinho e fiz a invocação desta musa. No primeiro minuto nada aconteceu de especial, mas no minuto seguinte apareceu-me uma criatura de pele alva e cabelos encaracolados negros com uma fala de sotaque espanhol perguntando-me se havia passado por ali uma menina birrenta correndo atrás de um ursinho de pelúcia. Os olhos da criatura olharam-me com tanta verdade que fui obrigado a admitir que não tinha prestado atenção aos transeuntes  e muito menos para uma garotinha com as descrições que me dava. Pensei seriamente em dizer-lhe que estava variando do juízo, mas em virtude de sua companhia, um cara alto musculoso e forte como o exterminador do futuro(referencia fílmica obrigatória), resolvi fingir que acreditava no que estava se passando. Ela se foi e eu fiquei com aquela impressão de que esta primeira musa iria ficar me vigiando por aí. Ela parecia com uma cigana num primeiro momento e em outro com uma rainha e noutro com coisa alguma que eu já tivesse visto.

Albert significa imaginação e inovação. É uma homenagem a Albert Einstein. Fiz a invocação a Albert  quando estava sentado em um ônibus coletivo lotado da linha 202, com destino ao Bairro do Geisel, às seis horas da tarde. Este ônibus neste horário tem muitas semelhanças com os trens da central do Brasil no Rio de Janeiro em horário de pique, ou com aqueles trens do metrô de Tóquio nos quais cada milímetro está rigorosamente preenchido por alguma parte de alguma pessoa. Ao chamar por Albert, percebi que uma garota de rosto oval, muito bonita, cabelos louros visivelmente pintados, abriu a sua sacola cor de rosa e retirou dela uma coleção de sapos e rãs que foram se espalhando pelo veículo. O mais surpreendente é que as pessoas não se abalaram com este fato inusitado. Ao contrário, incorporaram os anfíbios às suas conversas. O mais impressionante é que os animais entraram nos diálogos como se fossem um passageiro qualquer. Não dava para esconder a minha admiração de tais acontecimentos. Albert perguntou-me se eu não estava curioso com o que poderia acontecer em seguida. Os seus olhos eram tão belos que não pude resistir ao convite.

Bea Maluquinha significa "seja maluco em nome do brilho criativo". Mal abri a boca e pronunciei o seu nome e vi uma garota caminhando sobre as águas da lagoa do Parque Solon de Lucena em João Pessoa. Pensei que estava sendo vítima de algum processo alucinatório, pois convenhamos que é loucura alguém caminhar sobre as águas nesta cidade. Os habitantes da antiga Felipéa de Nossa senhora das Neves sabem que aquelas águas são lodacentas e podem afundar qualquer criatura mortal, apenas a loucura justificaria os que se aventuram em sua lama e muitos tem pago com a vida tal ousadia. No entanto, lá estava Béa maluquinha. Ela veio até mim e disse:
- “O que acha disso ?”
Eu respondi que era uma excelente metáfora, mas que do ponto de vista real era insensatez. Ela me disse para segui-la. Eu admito que esta seja uma boa metáfora para lhes falar sobre a loucura criativa, que é acreditar em caminhar sobre as águas e fazer esta caminhada a despeito do que pensem todos inclusive eu mesmo.

Canção significa cultivo, encorajamento e boa companhia, alguém para nos cantar elogios. Canção me veio num momento em que olhava para a lua. Ela sentou-se ao meu lado nas areias de Tambaú. Acariciou os meus cabelos e encostou o seu corpo ao meu de modo que podia sentir a sua respiração. Esta é a musa do amor e da amizade verdadeira. Tão importante que não há muitas palavras para descrevê-la. Ela surge nos momentos mais inesperados. É aquela fonte de energia que nos impulsiona para a frente. É uma criatura mutável, em sua forma física, podendo apresentar-se de muitas maneiras. É a musa que recarrega as suas baterias. Ela é tão forte que quase não precisa do Arnold para protegê-la.

Extrovertida significa não tenha medo de errar. Esta musa sempre vai bater à sua porta e você vai mandá-la embora por variados motivos. O nosso tempo desaprendeu a cultivar a ousadia e conformou-se a aceitar os modelos de perfeição preestabelecidos. Tudo o que conta é que você quer ser reconhecido pelos seus amigos. A musa extrovertida surge no meio deste processo, vem sem que seja invocada, mas é necessário aceita-la. Ela também é muito temperamental e por experiência própria quando os seus belos olhos azuis se sentem rejeitados, ela te abandona e deixa você na mesmice das obras perfeitas e comuns.

Audácia, significa não se preocupar com as opiniões alheias. Certa vez logo depois de ler sobre ela no livro chamei-a enquanto caminhava pelo Parque Municipal Arruda Câmara. Ela surgiu nua entre os leões e causou um alvoroço imenso. Os leões, claro, nem sequer deram qualquer ar de incômodo. O público agoniou-se com a cena que prenunciava uma tragédia. Ela olhou-me com e com o pensamento disse-me:
-“Estamos sozinhos, o que você quer de mim?”
Tive que me afastar para que aquela musa não abusasse de mim em público.

Sossegada, significa interrupção, pausa e folga. Quando invoquei por ela eu estava no meio de uma importante reunião de planejamento, muita gente tensa, muitas palavras  sem produzirem nexos. Ela veio na figura da moça que servia o cafezinho, linda e reconfortante. Devo admitir que de todas as musas esta foi a que me pegou de primeira sem qualquer questionamento. Acho que devo ter bebido uns trezentos cafezinhos entre um minuto e outro. Ela levou-me para sua casa, um ninho numa nuvem que fica pairando sempre sobre a nossa cidade. Ela tem o nome meio plácido, mas é muito animada.

Sombra significa o lado sombrio. Esta é uma criatura perigosa se você não souber como evocá-la e como mandá-la de volta para a sombra. De fato, ela está sempre ao seu lado, anda colada com você. É capaz de detonar qualquer coisa que você esteja fazendo. É ciumenta ao extremos, possessiva, muitas vezes parece-se com um vampiro que somente toma-lhe as energias e é capaz de rompantes de mal humor desconcertantes. Ela deve sempre ter a sua hora, mas tenham a certeza de que ela vai querer mais. Ela sempre vem de formas diferentes e amolda-se às circunstâncias. Saiba agradá-la. Acho que é a única musa de quem Arnold tem medo.

Merge  significa começar agora. Quando você está sem saber como dar o pontapé inicial basta chamar por Margie. Ela é a musa que começa um trabalho. Eu estava com dificuldade para fazer a pintura do muro de meu jardim, então me lembrei dela e a invoquei, no instante seguinte uma bela criatura entrou pelo portão e perguntou se podia ajudar, claro que sim, quem iria recusar uma ofertas dessas. Esta criatura ficou comigo até que tudo estivesse terminado. Eu já tinha me apaixonado, mas não tive sequer tempo de perguntar se era bacana ser uma musa. Ela desapareceu tão misteriosamente como chegou.

Por experiência própria eu sei que cada pessoa especial que cruza as nossas vidas tem um pouco destas musas descritas.

Se encontrar com o livro das musas modernas, dê uma olhada nele.

sexta-feira, 4 de março de 2011

A HEROÍNA ANDREZA AMARAL


Hoje, 4 de março de 2011, o destino me fez cruzar com uma heroína, alguém de carne e osso, mas que se tornou um símbolo da aviação civil brasileira. Faz pouco tempo que esta mulher impediu que um dos tratores comandado pela Prefeitura Municipal de João Pessoa destruísse a pista do Aeroclube da Paraíba em João Pessoa.

A pista foi destruída pelas outras máquinas.  A força malévola e truculenta do poder público municipal, nesta atual fase sem o seu grande girassol, sem a luz que lhe guiava e agora sob a influência de forças ocultas conseguiu, numa ação que a população da cidade assistiu aterrorizada,  destruir uma pista de pouso e decolagens que tem registro internacional. Sabíamos todos que aquela pista que completou 70 anos não era somente uma tira de asfalto, que tinha uma história, que era controlada pela Agência Nacional de Aviação Civil, que servia de base para aeronaves militares, que servia de base para aeronaves do ministério da saúde, que tinha de plantão uma UTI Aérea, coisas que os moradores da cidade se acostumaram a conviver. Uma pista que aparece até no Microsoft Simulator, que é um jogo de simulação de vôo. Além, dos ultraleves que embelezavam o nosso céu e os pára-quedistas que se tornaram parte do céu como o sol, a lua e as estrelas.

O ato Heróico de Andreza Amaral não foi inútil. Hoje com o seu ato, mesmo com o amordaçamento da imprensa, plenamente perceptível quando se folheia os jornais locais, as notícias circulam através da rede libertária da internet e ficamos sabendo dos fatos.

Tive a honra de apertar a mão de Andreza. Senti a mesma força quando tive a oportunidade de apertar a mão de grandes heróis da luta socialista como Luis Carlos Prestes e Gregório Bezerra. Eram personagens de outro contexto, de outras lutas. O que Andreza em minha opinião tem em comum com eles é a capacidade de colocar a própria vida em risco pela luta de um ideal justo. Lutar pela única Escola de Aviação Civil da cidade de João Pessoa e por sua pista de pouso e decolagens é um ideal justo. E hoje, infelizmente, assisto em minha cidade um crescente medo de articular uma opinião divergente, principalmente daqueles que por dependerem de alguma forma do poder público temem alguma represália.

Ainda em dezembro escrevi uma mensagem no Facebook assustado com o caráter autoritário do decreto de desapropriação, que já naquele instante achava algo desproporcional pela ARROGÂNCIA de sua publicidade. Não imaginava que as coisas teriam um desfecho ainda mais truculento. O texto era o seguinte: "Pense em um prefeito autoritário! É o prefeito de João Pessoa. A personificação da soberba. Abro o jornal hoje de manhã e vejo ele e sua equipe exibindo do alto de seu poder o decreto de desapropriação do Aeroclube. O Aeroclube recebeu de presente de 70 anos este ato de traição da Prefeitura Municipal. É bom guardar o jornal para lembrar às gerações futuras quem estava presente neste ato de covardia. O atual prefeito quer reformar a cidade passando por cima de quem estiver na sua frente. Tenha calma prefeito."

O tempo vai passar e aquela foto tirada pelo fotógrafo Marcus Antonius irá perdurar. Aquela foto ressurgirá sempre que se falar de aviação civil e das dificuldades dos aeroclubes, estará presente quando se falar da coragem da mulher paraibana, estará presente quando se falar dos arroubos autoritários de futuros governos, porque os ditadores estão sempre à espreita na pele de algum cordeiro.

O gesto de Andreza Amaral entrou para a posteridade. Quando os pára-quedistas lançarem-se ao espaço sobre a iluminada cidade de João Pessoa verão do alto em seus corações a imagem daquela frágil mulher, lutando desproporcionalmente com a truculência do autoritarismo municipal.

Resta-nos agora ligarmos os nossos computadores e procurarmos a informação em variadas fontes. Não é mais possível confiar na imprensa tradicional. Acabou-se o tempo dos ideais. Vivemos num contexto de luta pelo poder puro e simples, de um grupo contra o outro, de disputas econômicas. É este o paradigma do tempo atual, não há mais esquerda ou direita no sentido político, há conveniências e só. É belo ver o gesto de alguém lutando pelo que é justo, pelo direito de defesa de sua escola de aviação.  

Eu penso que a justiça será feita, pois ainda acredito na justiça. Acho que há pessoas como o Presidente do Tribunal de Justiça da Paraíba, Abraham Lincoln e a Juíza Federal Cristina Garcez, capazes de interpretar a lei com imparcialidade e que deram ao Aeroclube o direito de defender-se adequadamente.

Viva Andreza! Quando olharmos o céu e virmos homens e mulheres colorindo as nuvens com os seus pára-quedas lembrem-se do gesto corajoso dela.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

FEIJÃO



A arte culinária é algo misterioso. Não bastar seguir as receitas que estão nos livros. Há algum segredo que somente os iniciados conhecem.  Todos estes livros que estão à disposição do público são mentirosos. Sei disso porque já tentei inúmeras vezes fazer um feijão comum, daqueles que se come na casa da mãe ou num boteco do mercado da torre. O meu feijão simplesmente não me obedece,  já tentei de tudo,  até acendi umas velas e uns incensos para inspirar os grãos a me obedecerem.
   
Certa  vez passei cinco horas no fogão tentando fazer com que ele ficasse mole  num ponto aceitável para a mastigação. Ao final obtive um amalgama de massa feijônica que se fosse jogado contra uma parede ficaria grudada lá,  como uma meleca gelatinosa que as crianças brincam de jogar nas paredes.

Naquele dia, para não viver a humilhação, decidi que este seria o feijão da semana, mas para comê-lo primeiramente tive que aceitar a recusa dos que dividiam a refeição comigo. Tudo bem, eu sabia que as leis da química eram democráticas e funcionavam para todos. Assim, parti para comer a minha gororoba. “Gororoba”,  foi este o nome que recebeu a minha criação culinária. Eu mesmo me arrependi de tê-la colocada na boca. Ela mais parecia àquela massa grudenta da maçã do amor que comemos na festa da padroeira de nossa cidade.

Bem, disse-me a minha querida namorada:  “feijão deve-se por de molho”.  Ela disse isso, sem nunca ter fritado um ovo,  para humilhar as minhas inabilidades no fogão. Tudo bem, se é para por de molho, então eu vou por de molho e para garantir que não iria ficar duro, resolvi deixar de molho por cinco dias. Mas o resultado foi diverso, algumas sementes chegaram a brotar. Ficou lindo, mas o feijão não deu sinais de que iria ficar bom pois estava com um certo azedume no odor.

Então resolvi fazer campana e espionar a faxineira fazer o feijão. Ela para a minha desdita e suprema queda na escala da inteligência humana, chegou de manhã cedo, mediu duas xícaras de feijão, espalhou-os na mesa, catou as sementes uma a uma, depois as lavou e  colocou- as na panela com água e sal. E eu fiquei murmurando com os meus botões, quero ver este feijão castigá-la por cinco horas e ainda virar um tijolo, mas fiquei estupefato, em pouco mais de sessenta minutos , lá estava o feijão soltinho e gostoso. Fiquei pensando que ela aproveitou algum momento de distração e colocou alguma substancia ácida amolecedora e mágica  que somente algumas mulheres guardam entre si e passam uma para as outras secretamente. Quando eu perguntei o que ela havia colocado no feijão, ela me respondeu, ora, água, sal,colorau, um pouco de cominho e carne de charque. Só isso, perguntei. E ela respondeu: só, o senhor queria que eu colocasse  lingüiça calabresa?

Calei-me e fui acabrunhado me deitar para entregar-me a uma profunda meditação: por que o feijão, o mesmo grão se recusava a ser cozinhado por mim? Por isso acho que há alguma feitiçaria envolvida,  alguma oração de santo amolecedor de feijão. Já pesquisei no Google, mas não encontrei nem uma criatura do mundo espiritual com esta função específica.

A minha outra tentativa foi ainda mais jururu. Resolvi usar o forno microondas, que conforme a lei da física cozinha os alimentos de dentro para fora. Seria o meu ataque fatal ao coração do feijão, pois já que ele encruava e me fazia de bobo num cozimento normal, queria ver como reagiria a um ataque molecular com ondas de energia. Copiei uma receita da internet,  assisti alguns vídeos  e fiz um roteiro detalhado. Usei um cronometro para não deixar passar nenhum tempo de cada etapa.

imaginem que o microondas ficou um grude só de feijão, pois o mesmo explodiu dentro do forno. É verdade que a massa ficou até comestível e ainda tentei comer como feijão moído. Limpar o forno microondas exigiu  paciência e resignação. Por fim decidi comprar umas caixinhas de feijão que já vem pronto. É só tirar da caixa e servir, não precisa nem colocar no fogo para esquentar.  

A minha namorada fez o diagnóstico astrológico de meu caso dizendo que como eu sou de um signo de água, então qualquer coisa que envolva fogo será muito trabalhosa para mim. Acho que isto é apenas uma estratégia da grande confraria feminina que governa o mundo desde os mais antigos tempos. Algumas receitas estão tão bem  guardadas que mesmo publicadas em livros são inacessíveis aos olhos profanos. Fazer um feijão decente é uma delas.